quarta-feira, 24 de junho de 2009

O(s) Tempo(s) e o dentro



Como todos bem sabemos e sentimos o tempo de fora não é igual ao tempo que existe dentro de nós. Mas mais do que não ser igual obedece a lógicas radicalmente diferentes.

O tempo de fora é o tempo cronológico, racional, organizador da nossa consciência e da vida em sociedade, onde passado, presente e futuro formam uma sequência unidireccional e unívoca.

Em contrapartida o tempo de dentro é o tempo do inconsciente, onde não há sequência alguma, obedecendo a uma lógica a que Matte Blanco chamou de simétrica, pois nela o passado é igual ao futuro, o grande é igual ao pequeno, o cheio igual ao vazio.

Não deixa de ser curioso observar que quanto maior for o distúrbio psicológico apresentado mais este tempo de dentro se vai sobrepor ao tempo de fora, com prejuízo da adaptação ao mundo exterior. É frequente por exemplo um esquizofrénico não saber em que ano está, pois vive mais virado para as sensações oriundas do seu mundo interno do que para o mundo externo. Ou ver um melancólico desesperadamente agarrado ao passado, ou um hipomaniaco em continua fuga para a frente, sem conseguir sequer viver o presente.

É também a evocação do tempo de dentro que faz a histérica confundir afectivamente o pai com o marido e/ou com o filho. E o obsessivo tentar isolar e/ou anular magicamente actos e pensamentos.

Mas se o tempo de dentro nos convoca continuamente a nossa capacidade de pensar, no sentido de reconhecer, nomear, descodificar e entender a amálgama de sensações e afectos que emergem dentro de nós, é o tempo de fora presente no olhar do(s) outro(s) que nos mostra o que fomos, o que somos e o que poderemos ser, no fundo, que é a passagem do tempo que, ao testemunhar a continuidade da nossa existência e do essencial dos nossos afectos e pensamentos, nos permite afirmar a nossa identidade no mundo.


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