quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Contar é falar sem necessidade, pelo prazer de dizer."
R. Diatkine (1985)

domingo, 9 de agosto de 2009

Psicoterapia e Neurociências, um namoro difícil ou um casamento á vista?



A questão das neurociências da psicologia já se coloca á cerca de um século, Freud escreveu que muitas das doenças psicológicas que observara teriam no futuro uma melhor compreensão e tratamento com o evoluir das neurociências.
António Damásio ao ser confrontado com uma pergunta de uma jornalista, no sentido de saber como se podem alterar as conexões neuronais de determinada estrutura de personalidade, respondeu “fazendo psicoterapia!”.
Faz algum sentido começar por explicar o que cada técnica de captação de imagens pode dar.
A TAC - tomografia axial computorizada - permite obter imagens do cérebro através de raios X. A diferença de densidade dos tecidos autorizam a visualização das várias regiões cerebrais como nestas imagens tomadas de diferentes ângulos. A TAC permite detectar alterações anatómicas no cérebro tais como tumores, AVCs e outras anomalias.

A RM - ressonância magnética nuclear - é um sistema de neuro imagem anatómica não invasiva que oferece imagens cerebrais de alta resolução obtidas a partir da medida das ondas que emitem os átomos de hidrogénio quando são activadas por ondas de radiofrequência num determinado campo magnético.

A PET - tomografia por emissão de positrões - permite detectar a actividade cerebral determinando o fluxo de sangue, o qual contem átomos radioactivos que emitem positrões. Avalia a quantidade de actividade metabólica do tecido cerebral. Os pacientes são injectados com uma substância radioactiva a qual vai ajudar a produzir imagens das áreas cerebrais activas. Ou seja, esta técnica permite imagens tomográficas funcionais do cérebro em situação basal ou durante a realização de alguma actividade.

A IRMf - ressonância magnética funcional - é sensível às alterações do fluxo sanguíneo que percorre todo o cérebro e se altera a todo o instante conforme a actividade das células nervosas (neurónios), podendo-se detectar onde essa actividade está mais intensa. A técnica fundamenta-se na medição do oxigénio no sangue nas áreas mais activas do cérebro, gerando imagens cromáticas de alta resolução tendo aberto enormes expectativas na ampliação do conhecimento das funções cognitivas.

Embora seja uma técnica diferente, o EEG - electroencefalograma - permite o registo da actividade bioeléctrica de numerosos potenciais de acção que são recolhidos por eléctrodos aplicados na superfície do couro cabeludo. Uma aplicação do EEG é a técnica dos Mapa de Actividade Cerebral (MAEC ou BEAM em inglês, iniciais de Brain Electrical Activity Mapping) a qual serve para estudar as alterações de activação de qualquer das quatro ondas do EEG - delta, teta, alfa e beta - durante a execução de tarefas cognitivas. Mais recentemente a MEG (magnetoencefalografia) permite identificar com maior precisão a origem das ondas cerebrais.

Através das novas técnicas de imagiologia torna-se possível observar e interpretar imagens do cérebro em actividade de uma forma mais completa e eficiente. Gradualmente, os progressos técnicos da imagiologia cerebral poderão mostrar como o cérebro codifica informação complexa e não apenas onde se dá essa codificação.

Noutros post´s farei uma abordagem mais aprofundada de cada uma das técnicas e do que tem vindo a ser investigado na nossa área.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Malos Habitos de Simon Bróss


Um filme bem interessante que fala de diferentes relações patológicas com a comida. A relação da freira sustentada numa lógica de pensamento mágico. A relação com a comida é uma relação de sacrifício que no pensamento mágico origina “milagres” de cura. Ao comer alimentos repulsivos, demasiado salgados, azedos, estragados está a consumar um sacrifício que se irá traduzir na salvação da tia doente, como na sua infância rezar quando o pai se engasgava quase até à morte, lhe fez criar a ilusão de que a sua reza tinha tido o poder de salvar o pai da morte eminente. É, no fundo, uma relação obsessiva em que a comida é um mero mediador do efeito mágico. Da relação sado-masoquista com a comida em que come alimentos deteriorados ou demasiado condimentados, passa à restrição alimentar que mantém a dominante sacrificial.

A anorexia da mãe traduz-se numa tirania perante a filha gorduchinha controlando-lhe a comida e exigindo-lhe exercício físico demasiado frequente que pratica em si propria, revelando a insuportabilidade de uma relação de prazer com a comida e a obsessão pelo controlo. O marido incapaz de se relacionar sexualmente com o corpo demasiado magro da mulher envolve-se com uma rapariga que gosta de comer e de sexo.

A tensão interior dos personagens intensifica-se e rompe-se o ciclo destrutivo com a morte ou a aproximação à possibilidade de homicídio/suicido. É um filme que exprime a força destrutiva das dinâmicas obsessivas centradas nas relações com o corpo e o poder (enquanto antídoto da impotência).

A arte da narrativa!


Muitas vezes encontro pessoas com histórias de vida muito bem organizadas e coerentes. Outras vezes encontro uma emocionalidade que impede o acesso á própria história.

Ora isto deixou-me a pensar, se por um lado os pacientes adultos com uma narrativa mais organizada estão mais funcionais, devido as suas defesas ligadas á intelectualização, por outro a dificuldade ou incapacidade de experiencias emoções deixa-os num sofrimento surdo que os impede de ter algum prazer nas suas vivências quotidianas. Algumas pessoas já começaram a sessão dizendo que não conseguiam sentir emoções.

Mas aqui a questão central é a narrativa.
Por vezes o recontar da história permite uma distância que ajuda a organizar, por outro lado o repetir de algo pode levar a um estado de auto-comiseração que afundará a pessoa no seu papel de vítima.

Tarefa difícil para o terapeuta, por um lado ajudar a recontar uma história, por outro, mudar o significado emocional para o paciente, para que este possa seguir em frente.

No fundo, uma narrativa bem sucedida, é aquela que a vítima se torna o herói sobrevivente… não é isso que as crianças fazem sempre!

sábado, 25 de julho de 2009

Afinal...quem tem medo do lobo mau ?


Há algum tempo atrás escrevi um post, que aqui vou reproduzir, sobre a forma como as histórias da nossa infância têm vindo a ser distorcidas a fim de supostamente diminuir a violência nelas contida. A história do capuchinho vermelho é uma das que tem sofrido mais alterações.

Brenman, na sua tese sobre a relação das crianças com as histórias infantis defende que, contrariamente ao que tem sido defendido por muitos, é bom que as histórias contenham personagens maus e violentos, tipo lobo mau, bruxas, etc, pois as crianças precisam aprender a lidar com e a vivenciar essas emoções.

O que aqui me suscita maior reflexão é a tendência crescente para educar as crianças de forma asséptica, a qual por sua vez parece corresponder a uma cada vez maior preocupação parental em expor os filhos a algo que sempre fez e sempre fará parte da natureza humana, como é o caso da agressividade e da violência.

Ora porque será que os pais andam tão preocupados com a violência e tão envolvidos em estratégias educativas para a neutralizar senão porque eles próprios se mostram cada vez mais incapazes em lidar com esses sentimentos?... O resto corre por conta dos mecanismos de identificação projectiva, visto que a forma como os pais intuem os filhos depende das partes de si próprios sobre eles projectadas.

Desta forma, o preocupante não é a violência presente nos contos infantis mas a violência latente presente no interior de cada mãe ou pai excessivamente preocupado com a violência. Pois dos progenitores a criança não pode desviar os sentidos…

Assim, preocupante para mim é a interiorização silenciosa que a criança é forçada a fazer da violência contida dos pais e que vai constituir as bases de identificação de que tanto precisa para construir a sua identidade.

Muito mais pacifica em termos desenvolvimentais, por paradoxal que possa parecer, é a violência mais turbulenta, mas sobretudo visível, que permite à criança jogar os seus conflitos, fazer à vez de vitima e de carrasco, identificar-se a uns e/ou a outros, encenando movimentos de aproximação e de afastamento segundo os afectos nela mobilizados.

Claro que se nos colocam muitas questões relacionadas com este tema da violência presente nas referencias culturais, sobretudo as que dizem respeito ao simbólico e à metáfora e à forma como a sociedade de hoje os vive e os transmite à criança, mas isso é tema de outra discussão.

Deixo-vos com duas imagens, o lobo mau de barriga aberta, e uma mãe/pai horrorizados com a barriga aberta do lobo mau... Não será com certeza difícil perceber qual é a que pode fazer mais estragos na mente de uma criança ...

MÃE, CONTA-ME UMA HISTÓRIA




ola Eliana


esse livro do Bruno Bettelheim foi-me utilíssimo quando a minha filha era pequena. Não que lho lesse, claro (:)), mas ajudou-me a perceber o simbolismo por detrás dos contos e lendas, às vezes assustadores, que se vão narrando às crianças (espero eu que ainda haja quem o faça).


Esses contos tinham uma função essencial que era a dos medos, terrores e fantasias poderem ser vivenciados na presença contentora da mãe (ou doutra figura parental). Uma espécie de faz- de-conta que me parece essencial no crescimento da criança. Até o complexo de Édipo está lá, como Bettelheim nos explica.


Vejo por aí à venda uma literatura infantil asséptica que não indicia nada de bom e que me parece que não permite à criança vivenciar experiências estruturadoras da sua identidade. Mas pode ser que esteja a ser pessimista, não sou especialista... Em contrapartida, e embora nada me mova contra a televisão ou outras tecnologias, consta-me que há desenhos animados assustadores e muito violentos, especialmente na ausência de alguem que explique e sossegue.


A minha filha tinha os seus contos preferidos, que nem sempre coincidiam com os meus (isto é, de quando eu era criança). Eu sempre adorei a história do capuchinho vermelho (carregadinha de simbolismo - quem pode ficar indiferente perante aquele lobo mau disfarçado da avózinha) mas supeito que ela preferia a história da Goldilocks (Caracolinhos loiros, numa das versões portuguesas), em que a miúda entra em casa da família dos ursos (pai, mãe e filho) na ausência destes. O conto tinha obrigatoriamente de ser narrado imitando as vozes do pai, da mãe e do filho ursinho. E da menina, que no fim foje por uma janela, depois de ser deitado (!) na cama de cada ums das personagens, sentado nas suas cadeiras e comido das suas tijelas.


Ah, a curiosidade infantil... O Freud chamava-lhe instinto escopofílico. É conveniente que a criança possa exercitá-lo e orientá-lo para a criatividade.

AINDA ACERCA DA NEUTRALIDADE

http://www.apa.org/monitor/2008/10/privacy.html

Para os interssados, este arigo da revista da APA sobre os psicoterapeutas, os clientes, a net e as redes sociais, é interessante.